29 de abril de 2005



Pós-punk pela paz
Por Flávio Seixlack

Prepare-se! Tony da Gatorra vem aí. Se você até hoje não ouviu falar nesse nome, essa é sua chance. Tudo começou em 96, quando um baterista gaúcho, chamado Tony, resolveu fazer um instrumento inovador, mas que ao mesmo tempo tivesse características de bateria. Resultado: dois anos mais tarde estava pronta a incrível gatorra, um misto de bateria eletrônica e sintetizador, com o corpo parecido com uma guitarra. Começou então a fazer música, com letras de protesto, rebelando-se principalmente contra as desigualdades do nosso país. Principal articulador da vinda do músico para São Paulo, o vocalista do Blue Afternoon e proprietário da Peligro Discos Guilherme Barrella, define o estilo musical de Tony: ?o som é pós-punk outsider de protesto. Uma mistura de Objeto Amarelo com Wesley Willis?, conta. O disco de Tony, que foi colocado na barraquinha da Peligro, ?esgotou rapidinho?. [...]Falamos com Tony da Gatorra por telefone, pouco antes dele pegar o ônibus pra São Paulo. Confira a entrevista.

Quando foi que você começou a tocar?
Foi em 98. Aconteceu da necessidade de revolta, de ver as pessoas crescerem com fome, apavoradas com o sistema capitalista, meu pai passando necessidade, sendo massacrado por esse país que nos rouba tudo. Então essa foi a inspiração, muita gente não podia dizer nada, então fui dizer e iniciei esse trabalho.

Como ocorreu a construção da gatorra? Você já pensava em fazer algo do tipo ou foi saindo aos poucos?
Quando eu era solteiro eu tocava bateria. Então queria fazer alguma coisa nova, um instrumento diferente que tivesse a ver com a bateria. Como sou eletro-técnico, resolvi começar a construir a gatorra em 96. Só fui terminar em 98, e a gatorra sofreu vários aperfeiçoamentos até virar o que ela é hoje. Quando terminei, comecei a fazer as músicas.

Porque o nome gatorra?
Eu queria um nome que tivesse a ver com guitarra, então fui procurando e criando vários nomes até surgir a gatorra, que se encaixa melhor ao instrumento.

E como funciona a gatorra?É um circuito de percussão sintonizado, que consegue mudar timbres, e que tem outros efeitos de sintetizador também.

Como foram suas aparições em programas de rádio e TV do sul? Como aconteceu o convite?
Quando já tinha as músicas prontas, fui atrás das rádios e programas de TV. Entrei em contato com a Rádio Ipanema FM, que deu uma força muito grande. Foram os maiores apoiadores do sul até hoje. Depois disso, fui convidado pra tocar em diversos lugares e programas, toquei ao vivo numa rede de televisão aqui do sul. Estive presente na TV em todos os feriados, ao vivo. Fui muito bem recebido, o pessoal aqui gosta muito de mim, sou muito popular aqui no sul. Já fiz 10 ou 20 apresentações ao vivo em emissoras de rádio e TV aqui na região. Além disso, tenho dois clipes, um feito por mim mesmo, e o outro produzido e feito pela Bandeirantes. Os clipes sempre passam na programação das TVs aqui da região.

Ouvi dizer que você vai lançar um novo disco. É verdade?
A não ser que regravem algum disco meu, não lançarei um novo com meu dinheiro. Não tenho recursos nem patrocínio. Eu pretendo lançar um disco, mas no momento não posso por causa de dinheiro. Minhas gravações são de baixa qualidade. Meu primeiro disco foi gravado em K7, e depois passamos para CD. O segundo, as quatro músicas foram gravadas ao vivo num estúdio, sem muitos recursos. Sobre meus discos, enviei vários CDs para o Gui, que vendeu todos aí em SP, fico feliz. Mas como sou pobre, o pessoal procura os discos mas não tenho condições de fazer mais.

Você vem pra SP hoje. O que espera conquistar aqui?
Espero que realize tudo o que venho lutando desde 98. A expectativa é muito grande, quero arrumar uma gravadora, e espero que um empresário venha falar comigo. É tudo o que um artista espera. Também espero que as pessoas ouçam meu recado, o que tenho a dizer.

Serão dois shows em SP. Como vão ser essas apresentações?
Meus shows têm o repertório de uma hora, falo pouco, falo sobre as músicas que fiz e o recado delas. Tudo isso praticamente sozinho, não fosse a companhia da minha gatorra.

Como foram os shows do Fórum Social Mundial? Como foi a recepção?
O pessoal é ótimo, participei da 2º, 3º e 5º edições. Fui muito bem recebido também. Participei de uma rádio comunitária, muita gente queria meu disco e eu não tinha, mas distribuí e colei cartazes sobre a paz e a total inclusão social.

Muita gente te liga? O que elas falam?Muita gente liga sim, pedindo pra fazer shows, mas o cachê é sempre pequeno, e como não tenho carro e sou pobre, não posso ficar gastando muito com shows. Se o Gui não me desse essa mão, eu provavelmente acabaria ficando extinto. Mas acho que a ida a SP vai dar uma levantada na minha carreira.

Suas letras são todas de protesto. O que te inspira?
Como falei, aquela ansiedade de dizer algo que muita gente não pode dizer. Eu sempre quis falar e em 98 surgiu essa oportunidade através da música. As portas foram abrindo e hoje digo o que o povo quer dizer, tentando implementar o socialismo no Brasil, um país só de mercenários e exploradores, que roubam todo nosso dinheiro.

O que você acha que é necessário para um mundo melhor, mais pacífico?
Eu acho que é a inclusão e divisão igual pra todos. Ninguém é dono da terra, todos têm o direito de ir onde o alimento está. Então é necessário acontecer a inclusão total, a irmandade, e dividir. Fora isso, nossa sociedade não vai funcionar.

Você acha que o Brasil ainda está muito atrasado?
Sim, muito atrasado. O Brasil está entre piores países do mundo. Isso aqui é uma exploração total, é puro capitalismo, facismo e hipocrisia. As pessoas vivem por baixo das botas de quem invadiu a nossa terra há 500 anos. Somos muito explorados, temos nosso dinheiro roubado, e nossos impostos são sempre desviados para paraísos fiscais.

O que o pessoal de SP pode esperar com esses shows?
Espero que entendam o recado que estou dando, e a partir daí modifiquem, tenham novas idéias, e sintam que estão trabalhando em vão para o capitalismo. Precisamos pensar no progresso, e nos movimentarmos. A força está conosco, temos que tirar a corda do pescoço. Quem manda é quem trabalha, quem manda é quem produz.

Deixe um recado pra quem vai ver os shows em SP.
Espero que todos me aguardem e que eu possa levar minha mensagem de paz e harmonia. Paz pra todo mundo.

Você acha que a violência não é natural, mas o amor sim é natural?
Lógico, o ser humano não foi feito para a violência, a guerra enlouquece. O homem foi feito pra amar e trabalhar, a mão não feita pra agredir, e sim para gerar a paz.

Quais os planos pro futuro?
Meus planos? Gostaria de fazer da música meu trabalho, continuar com esse trabalho que comecei em 98. Sou eletro-técnico, conserto vídeo-cassete e TV, mas gostaria de continuar a tocar e viver de música. Música que fala daquilo que a maioria não pode falar. Sou o porta-voz deste país.

Aqui se pode ouvir algumas musicas do Tony da Gatorra. Destaque para Droga Fatal e A Voz dos Sem Terra.
FANTASTIC!!!!

Um comentário:

Anônimo disse...

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Christian, iwspo.net