1 de abril de 2005



DEUS, NOVES FORA, ZERO

ROBERT MAGGIORI


Como é difícil ser ateu! O "sem Deus" desaparece se negar a Deus; pior ainda: quando se afirma como tal, é preciso existir aquilo cuja existência ele quer negar!" Em seu "Traité d'Athéologie" [Tratado de Ateologia, ed. Grasset, 282 págs., 18,50 euros -R$ 65], o filósofo Michel Onfray não subestima essa dificuldade.
Mas do obstáculo ele faz um "órgão", um instrumento de convicção que lhe permite afirmar com ainda mais força a necessidade de um "ateísmo de amanhã", tranqüilo e audacioso, capaz de tirar a humanidade da "celebração do nada", da cultura dos fetiches, do ódio à vida nos quais a religião a mantém.

Digamos claramente: é preciso retroceder dois séculos -quando o conhecimento só podia contar com as luzes da razão e em que a história seguia sua marcha na ladeira do progresso- para encontrar um ataque tão terrível contra os dogmas, a ideologia, as práticas, os rituais religiosos, nos quais Onfray espera abrir pelo menos uma brecha.
"Desconstruir os monoteísmos, desmistificar o cristianismo mas também o islamismo, é claro, e depois desmontar a teocracia -eis três canteiros de obras inaugurais para a ateologia. Para, em seguida, trabalhar em uma nova premissa ética e produzir no Ocidente as condições de uma verdadeira moral pós-cristã, em que o corpo deixa de ser uma punição, a terra um vale de lágrimas, a vida uma catástrofe, o prazer um pecado, as mulheres uma maldição, a inteligência uma presunção, a volúpia uma danação."
A filípica de Michel Onfray não visa os homens de fé -mas a fé quando se fecha ou substitui o saber- nem os homens que se ajoelham ou baixam a cabeça -mas "aqueles que os convidam a essa posição humilhante"-, não o crente -mas o pastor. Como é possível que ainda vivamos "em um estado teológico ou religioso da civilização"?
Como é possível que a janela do mundo se abra todos os dias, a toda hora, sobre massas de fiéis que oram, seguem em peregrinação, aclamam pontífices, teocratas que pontificam, decretam, situam aqui o bem e ali o mal, indicam o que se deve pensar, o que se deve comer ou não comer, como vestir-se ou quem se deve matar, em que "o Talmude e a Torá, a Bíblia e o Novo Testamento, o Corão são mais citados do que a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Não se havia anunciado a morte de Deus?".

É preciso crer que não. Também devemos tirar disso algumas lições. De um lado, que o ateísmo não ergueu muros suficientemente altos para impedir a difusão daquilo que combateu. De outro, que a religião tem raízes inextirpáveis, na medida em que se prendem à própria condição do homem, confrontado com o absurdo de uma existência que o conduz inexoravelmente à morte.
A partir daí os jogos estão feitos, e os dados são viciados: a cruel realidade cede à doce ilusão, e a ilusão engendra outras ilusões, por cuja preservação estamos dispostos a pagar qualquer preço, a crer em todas as tolices, nos mares que se abrem e nas mães virgens que dão à luz, a fazer todos os sacrifícios, a sofrer, a nos arrependermos para sofrermos ainda mais, a nos colocarmos abaixo de zero, a nos humilharmos...
Poderíamos declarar perdido o combate: o que pode uma ateologia enquanto a hipótese religiosa se infiltrou em tudo, enquanto a religião habita a língua, os costumes e os usos, está presente nos nomes, na estrutura das cidades, na seqüência do calendário, na arte, no direito, na própria maneira como concebemos o corpo, com seus desejos baixos, suas vísceras sombrias, sua coragem no peito, seu nobre pensamento na cabeça, seu espírito e sua alma imputrescíveis?
É possível construir uma sociedade sem Deus, que, dispensando os "valores morais" promovidos há séculos pela religião, de obediência e mortificação, possa estabelecer a justiça, a liberdade e a felicidade para o maior número possível de pessoas -sem "cultura da morte", sem "elogio da submissão", sem "ódio à razão e à inteligência", sem "ódio a todos os livros em nome de um só", sem "ódio à vida, ódio à sexualidade, às mulheres e ao prazer; ódio ao feminino; ódio ao corpo, aos desejos, às pulsões"?
"Quanto mais o homem confere realidade a Deus, menos a conserva em si mesmo", disse Marx. Assim, é preciso esvaziar o real de Deus e examinar o modo como se constrói uma mitologia que, segundo o "Tratado de Ateologia", é portadora da pulsão da morte. Em outros tempos, Onfray teria sido levado à fogueira.


Texto publicado no "Le Monde".
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Um comentário:

Afonso Guedes disse...

Resenha perfeita. Infelizmente li o livro em espanhol e algumas palavras me escaparam, mas a essência foi atingida. O livro é excelente. As religiões, os monoteísmos principalmente, são umas pragas que um dia, que não verei, serão varridos como a varíola o foi.
A propósito: ví hoje uma foto do Rio antigo - 1904 - com a turba enfurecida, ateando (?) fogo em coisa pública, virando bondes, tudo isso para não serem obrigados a se vacinar contra a varíola. Por sorte nossa Oswaldo Cruz venceu. A ciência venceu. Tem tudo a ver.