22 de outubro de 2004

Vladimir Herzog, tu não morreu em vão
Por Mario Teza

"Ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso, porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei" (0)

******************************

"Na noite do dia 24 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, conhecido por Vlado por familiares e amigos, foi ao prédio do Doi Codi, na rua Tutóia, Paraíso, zona sudeste de São Paulo, para prestar esclarecimentos sobre sua atividade política. Foi a última vez que foi visto com vida.

Ligado ao PCB, o jornalista era na época diretor de jornalismo da TV Cultura, estatal paulista. Depois de fechar o jornal noturno da emissora, foi ao prédio "dar explicações".
Seu corpo foi apresentado à imprensa pendurado em uma grade pelo pescoço por um cinto, no dia 25. A grade era mais baixa que a altura do jornalista. Mesmo assim, a versão oficial era de suicídio.

O suposto crime cometido pelo poder público gerou indignação entre opositores do regime militar, que se repetiu cerca de três meses depois com a morte, em circunstâncias semelhantes, do operário Manuel Fiel Filho.

Na análise do rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, o assassinato de Herzog mudou o país.

"Foi o catalisador da abertura política e da restauração da democracia. Esse fato será sempre a recordação dolorosa de um sombrio período de repressão, um eco eterno da voz da liberdade, que não se cala jamais." (1)

Vladimir:

Começei a militar no movimento social aos 14 anos. Eram os idos de 1979. Era tempo de fundação da CUT e do PT. Não te conheci pois aos 10 anos só pensava em brincar na periferia de Porto Alegre.

Quase vinte e nove anos depois de tua morte, o Correio Braziliense divulga no dia 20/10/2004, uma série de fotos em que tu apareces em situções de humilhação.

"O Exército distribuiu uma nota defendendo órgãos como o DOI-Codi (centro de repressão do regime militar). O comunicado do Exército provocou irritação no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e indignação por parte de vários integrantes do governo, parlamentares, representantes da sociedade civil e de familiares dos desaparecidos políticos. Na terça-feira, o Exército divulgou nova nota em que considera a primeira "inapropriada". O Exército também lamenta a morte de Herzog e afirma não querer "reavivar fatos de um passado trágico que ocorreram no Brasil".

A nova nota foi praticamente ditada por Lula para o comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, após conversa que reuniu também Viegas." (2)

Vlado:

Faltam 11 dias para o segundo turno das eleições para prefeito em Porto Alegre. Sim, agora temos eleições nas capitais e não existem mais as áreas de segurança nacional.

No dia 03 de outubro vivemos uma experiência marcante. Um colega meu de PT, LC Barbosa, escreveu um e-mail intitulado "Orgulho de ser petista." Petista é uma pessoa que milita, apoia ou vota no Partido dos Trabalhadores. Este partido não existia no teu tempo. Mas temos trabalhado junto com o "teu" PCB nestes anos todos em Porto Alegre. O texto do LC Barbosa é de uma beleza tocante. Numa parte ele fala:

" No último dia 3 de outubro conheci a solidão numa dimensão até então inédita. Eu estava lá onde sempre estive. Mas não encontrei os meus iguais, ou os parecidos comigo. Não encontrei os diferentes de mim que, por isso mesmo, nos encontramos pela vida e nos unimos em busca de uma sociedade generosa para todos, acolhedora e regrada pelo reconhecimento do outro como sujeito, não como coisa, objeto ou mercadoria.

O que mantém um homem vivo? Com certeza a dignidade com que vive a sua vida. Naquela tarde do último domingo de 3 de outubro lembrei de Berthold Brecht, lembrei de Wilhelm Reich, lembrei do Zezinho Oliveira e daqueles tempos de enfrentamento da ditadura e de construção do PT. Lembrei de muitos outros que estiveram naqueles
dias em que a esperança já começava a vencer o medo, não porque éramos jovens, mas, talvez, porque rebeldes e precocemente maduros.

No dia 3 de outubro experimentei uma estranha sensação de desamparo, de um estranho deslocamento. Onde estavam os outros? Os que sempre lutaram comigo? Os que venceram comigo e os que fracassaram comigo nos reveses? Será que estavam confortavelmente esperando em algum lugar para comemorar a vitória assegurada por uns
poucos de nós?

Durante umas seis horas de bandeira em punho fui insultado, agredido e recebi voz de prisão de um rapaz de uns 25 anos. Tão moço para ser tão velho, tão conservador, tão pobre e pequeno para gozar, apesar dos
pesares, o melhor que o mundo produziu e que nossa geração que se encontra ao redor dos 50 anos conseguiu preservar. Olhando o ódio nos olhos daquele rapaz e a sua covardia forte, dominante, pensei que realmente o pior da tortura não deve ser a dor física, mas a humilhação, o sentir-se impotente nas mãos do algoz, o sentir-se aniquilado pelo sórdido, o torpe.

Não desabei não. Mas faltou ao meu lado o companheiro com a sua velha bandeira, faltou aquela alegria irreverente diante do medo para vencer com esperança. Faltou aquela palavra determinada que envolve nossas terminações nervosas, faz o coração pulsar mais forte e a razão criar insígnias que animam o melhor de nossos sonhos. "(3)

Vlado:

Talvez não tiveste a chance de conheçer um cara que hoje concorre a prefeito pelo PT de Porto Alegre. Chama-se Raul Pont. Ele foi preso em 1971, quatro antes de ti. Aqui em Porto Alegre tem um escritor chamado Tabajara Ruas que escreveu o seguinte:

"No inverno de 71 o DOPS prendeu em São Paulo um jovem estudante de Economia, Raul Pont, o mesmo Raul Pont que hoje é vice-prefeito de Porto Alegre. Havia uma ditadura no país, caricata, obsessiva. Quando não apareciam inimigos, ela forjava inimigos. Ditadores e psicopatas se alimentam de inimigos, mesmo imaginários. Mas Raul era um inimigo
verdadeiro. Eles conheciam sua voz nos comícios, nas passeatas, nas salas de aula.
A notícia se espalhou em Porto Alegre como um calafrio. "Raul caiu".

Dessas prisões alguns nunca voltavam. Ou voltavam mutilados, no corpo e no espírito. (É preciso dizer essas coisas; esquecemos tão rápido.) Arma eficaz da ditadura era a censura e o silêncio. Ou conversa fiada sobre modismos culturais. Nos longos dias do martírio de Raul seus amigos esperavam notícias que não chegavam. Raul e eu não éramos amigos íntimos (não somos), mas conversávamos algumas vezes na fila do RU. Nos atraíam vagas idéias de justiça social, livros e
a cidade de Uruguaiana. Mesmo na infância e adolescência na cidade da fronteira éramos distantes. Raul estudava no Colégio União; eu, no Santana. Raul jogava basquete; eu, futebol. Raul era cobra em basquete. Assisti um jogo lendário, nos idos de 50, entre o União e o IPA, onde ele brilhou. Lembrávamos essas coisas no bar da Filosofia, os poucos que éramos de
Uruguaiana e conheciam aquele lado do Raul. Lembrávamos que ele falava pouco, ria menos ainda. Era muito tímido. Naqueles dias Raul tinha nos apresentado um autor inglês, um certo Orwell. Onde estava, agora, não havia direito a livros. Não havia direito a nada. As notícias eram escassa. A família acionou advogados, influências, uma rede de solidariedade. As notícias filtravam, sussurradas das sombras.

"está apanhando muito, mas não entregou ninguém".

Eu morava com meu irmão e os conterrâneos Baialardy e Reci num apartamento na ladeira da General Vitorino, em frente ao CAD (antes funcionava ali a Odonto). Costumávamos ficar até madrugada no bar da esquina com a Annes Dias, falando mal do time do Inter e da ditadura. Uma noite gelada no fim do inverno, eu saía do bar, solitário, quando vi um carro estacionar na esquina, e em seguida, outro. Do primeiro carro saíram dois homens de gabardine, puxando com brutalidade um terceiro, em mangas de camisa. Era um moço pálido, emagrecido, camisa manchada. Os dois homens o conduziram para a outro carro. Fui tomado por uma emoção desconcertante. Era Raul. Abaixaram sua cabeça, empurraram-no para dentro.
Então, ele me viu. (Acho que ele me viu.) Nossos olhos se encontraram. Como estava magro! Como estava desamparado e vulnerável... Os carros arrancaram. Fiquei ali encostado na parede, tão próximo do abismo. Mas Raul estava vivo. Era uma notícia para distribuir como o pão da manhã. Era uma notícia que eu carregava como um presente da noite gelada. Lembro essas coisas porque me pedem para escrever sobre um lugar de Porto Alegre. Confesso que busquei uma plácida rua de cinamomos, um banco de praça, um pôr-do-sol, mas me assombrava essa esquina de agosto. Tantas esquinas: a do beijo, a do susto, a da fuga e no entanto é essa que toma espaço na memória, a esquina de Raul, a da ressurreição. Sei poucas coisas, quase nada, sobre a prisão de Raul. (por essa época tomei o rumo do exílio.) Sei que ficou preso na ilha durante um ano e meio. Foi libertado numa véspera de Natal. Caminhou pela cidade, comprou livros na Cepal, bebeu chope com amigos, depois viajou a Uruguaiana para visitar os pais.

Nos lugares distantes por onde andei, muitas vezes busquei Porto Alegre no perfil de um rosto que passava, na foto de um gol de Bráulio, no leite bebido na manhã de verão, nos que morreram, nos que sobreviveram. As visões eram embaçadas, disformes. Por singular armadilha da memória, eu voltava àquela esquina e àquela noite (todos dormiam nas camas quentes) e revia a solitária resistência de Raul. Através desse sortilégio a cidade ficava completa. " (4)

Vlado:

O mundo mudou muito desde que te arrancsram de nós. Outro amigo autor, Antonio Martins escreveu a pouco tempo, sobre as novas formas de nossa resistência. Tu vais gostar de saber:

" Não se fazem rebeliões como antigamente. Há dois anos, na Venezuela, o que restou aos cidadãos, para enfrentar um golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez, foi a internet. Na semana passada, os espanhóis furaram o estado de sítio midiático imposto sobre eles por meio do uso febril de telefones celulares. A arma mais comum foram as mensagens de texto, ou... torpedos.

O volume de comunicações por celular na Espanha foi inteiramente anormal, da tarde de sábado ao domingo das eleições. As empresas telefônicas falam num aumento entre 20% e 40%, no número de chamadas completadas. Nas pequenas telas de cristal líquido circulavam, como sempre, convites para festas e encontros. Mas trafegava também a rebeldia. Questionava-se:
quienes fueron? Suspeitava-se: saben y lo ocultan. Exigia-se: la verdad!

Faltava algo, porém, para que a indignação saltasse do ciberespaço solitário para o calor das ruas. A fagulha foi riscada por alguém que permanece anônimo, mas cuja voz pode ser ouvida nas páginas de internet da Radiocable ? uma rede de rádios espanholas que se dedica a temas semelhantes aos dos Fóruns Sociais, e produz entrevistas com gente como o subcomandante Marcos, Ignácio Ramonet, Bernard Cassen, Immanuel Wallerstein e Naomi Klein.

Na noite de sexta-feira, esta pessoa é um madrilenho, politizado e possivelmente jovem q compôs um torpedo que continha, além de sentimentos, uma proposta e um endereço, redigidos quase em linguagem cifrada: Aznar não engana. Chamam de jornada de reflexão, e Urdaci [o manipulador da TVE] trabalhando. Hoje, 13M, às 18h. Sede PP, R. Gênova, 13. Sem partidos.
Silêncio pela verdade. Repasse!2

Enviada na manhã de sábado, ?a um grupo de quatro ou cinco amigos?, a mensagem ganhou a Espanha. Em Madri, cinco mil pessoas, pelo menos, concentraram-se diante da sede do PP, onde se encontrava o candidato Mariano Rojoy. Levavam cartazes onde se lia ?demissão?, ?mentirosos?, ?paz!?. Mas à noitinha de sábado, os QGs do Partido Popular começaram a
ser cercados em centenas de outras cidades. Em Barcelona, às 19h, duzentas pessoas encontraram-se na Rambla. Desafiando a ?jornada de reflexão?, gritavam: "Guerra não. Aznar assassino". Começavam a circular notícias
sobre a prisão, algumas horas antes, de marroquinos e hindus, possivelmente ligados ao atentado. Comentava-se também o assassinato pela polícia, em Pamplona, de um comerciante que se recusou a pregar em seu estabelecimento um cartaz condenando o ETA pelas explosões. Em pouco mais de meia hora, o número de manifestantes já passava de 3 mil. Decidiram ir ao PP, no outro lado da cidade. Ao chegarem, foram saudados por outros grupos, já concentrados no local. Ao fim da noite, 15 mil pessoas exigiam verdade e paz.

....

O autor do torpedo decisivo explica, em Radiocable, que não é filiado a nenhum partido. Angustiou-se ao se ver reduzido à condição de espectador impotente; agiu movido pelo desejo de ser cidadão, de participar da construção de seu futuro.

"Escrevi quase como um ato de raiva, um gesto desesperado, sem imaginar as conseqüências, a mobilização que se produziria (...) Meu telefone permite apenas 160 caracteres, a mensagem tem 158. Passei muito tempo editando o texto?. No dia seguinte, "fomos [ele e alguns amigos] a Calle Genova, para ver se haveria 15, ou 20 pessoas. Pensávamos em seguir, depois, ao cinema, ou a qualquer outro lugar. Mas notamos um certo congestionamento e ficamos alucinados. Quando
nos aproximamos da boca do metrô, percebemos que dali saía muita gente, com cartazes "não à guerra" e "paz" (...) Pensava: em que me meti? Mas as pessoas eram muito educadas. Nenhum incidente, nenhuma provocação. Todos
tinham muito claro o que queriam: a verdade".(5)

Vlado:

O Eduardo Galeano tu deves ter conhecido? Pois ele nos brindou, direto de um evento em em Barcelona, com esses pensamentos:

"Para salvar-nos, temos de nos juntar. Como os dedos na mão. Como os patos no vôo. Tecnologia do vôo compartilhado: o primeiro pato a alçar vôo abre passagem ao segundo, que clareia o caminho ao terceiro, e a energia do terceiro levanta a vôo o quarto, que ajuda o quinto, e o impulso do quinto empurra o sexto, que dá força ao sétimo. Quando se cansa, o pato que ponteia desce à rabeira do bando e dá seu lugar a outro, que sobe ao vértice desse V invertido que os patos desenham no ar. Todos vão se revezando, atrás e à frente. Segundo meu amigo Juan Diaz Bordenave, que não é patólogo mas muito sabe de patos, nenhum pato se crê superpato por voar na frente, nem subpato por marchar atrás. Os patos não perderam o senso comum." (6)

Vlado:

É claro que estamos pagando o preço do ineditismo em Porto Alegre. Lula elegeu-se presidente da República, sim, temos um operário presidente. Tem uma pontinha de Porto Alegre nesta vitória. Afinal nós e outras cidades provamos que a esquerda podia governar este país. E fizemos isso em situações bem adversas. Resistimos ao Collor, ao Fernando Henrique.
Mas agora nossos patos e patas, estão cansados. Para nossa alegria, novos e novas patos e patas estão chegando na cidade. Cada dia uma nova leva de homens, mulheres, jovens e idosos, chegam em Porto Alegre empunhando suas bandeiras para ajudar a militancia a garantir nossa vitória. São pessoas do Rio Grande do Sul e de outros estados que vem demonstrar sua solidariedade para com essa gente destemida que há 16 anos resiste.

Vlado:

No próximo domingo, 24 de outubro, tu completarás 29 anos de teu "desaparecimento". A partir deste dia, até as eleições dia 31/10, eu vou mandar e-mail e ligações telefonicas para meus familiares, amigos, colegas, pedindo apoio para o Raul Pont. Vou tentar imitar nossos e nossas irmãos e irmãs espanhois. Porto Alegre ? Madri.
Para cada um e cada uma falarei de ti. Tu morte nos fez irmos à rua pedir o fim da ditadura. Tua lembrança agora me faz acreditar que podemos vencer. Vladimir Herzog, tu não morreu em vão.

Resolvi escrever este texto a partir de uma conversa com um colega de trabalho. Ele conversava comigo sobre o esforço que fazia para convenser o genro a voltar da praia no feriadão e votar no Raul. Com os olhos mareados, voz tremula, ele lembrou do Herzog e disse para o genro: "Muitos morreram para tu poderes votar.' Este meu colega também me recordava da
história de Madri, dos telefonemas e dos emails. Valeu Claudio Martins,! Agradeço também ao email do LC Barbosa sobre o "Orgulho de ser petista. Ele me motivou a fazer o meu email. E agradeço ao Maneco, jornalista e ativista que ficou horas nos arquivos do jornal Zero Hora para encotrar o texto do Tabaljara Ruas. O Maneco também escreveu um texto lindo sobre o Voo compartilhado e software livre , do deputado Elvino Bohn Gass, que foi distribuido no 5 Fórum Internacional Software Livre. Me baseiei nele também. Enfim uma criação coletiva pois "Para salvar-nos, temos de nos juntar."

Não sei se algúem mais vai ler este texto. Nem se mais alguém mandará e-mails ou fará telefonemas. Mas eu vou fazer.

(0) Tocando em Frente: Almir Sater e Renato Teixeira

(1) http://www.resgatehistorico.com.br/doc_05.htm
http://www.uai.com.br/uai/noticias/agora/politica/133930.html

(2) http://noticias.correioweb.com.br/ultimas.htm?codigo=2618311

(3) http://br.groups.yahoo.com/group/PT-SetorTI-RS/

(4) Ladeira editado em 1994 pela Secretaria Municipal de Cultura pela Série Coruja.

(5) http://www.softwarelivre.org/news/1908

(6)http://www.softwarelivre.org/news/2398

(7) Ladeira da Memória: Texto de Tabajara Ruas no Livro A Cidade de Perfil

Nenhum comentário: