15 de julho de 2004

Não era como um passeio no parque em uma ensolarada manhã de domingo, eu estava só de
passagem. Já era noite, fazia frio, estava tudo tão sombrio e melancólico, acho que era um
sinal, mas como poderia saber? Na minha colossal ingenuidade atalhei pelo parque, o famoso
parque, era a forma mais rapida de chegar a um conhecido, com quem havia marcado um
encontro, horas antes. Andava a passos largos, não estava exatamente atrasado, mas ansioso.

Quase na metade do caminho, sou abordado por um policial, conhecido regionalmente por Dequi, sim, o famoso Dequi, aquele que gosta de passar a mão no saco dos revistados e ainda por cima roubar sua maconha. Ele me resvista pedindo onde eu ia, eu respondo, pediu se eu trabalhava e estudava, minha resposta foi positiva, revistando minha mochila ele encontra 2 reais e meio de maconha, sim, pois eu comprei 5 reais e consumi metade, então eram 2 reais e meio. Pede meus documentos, eu procuro e digo que não estavam comigo, lhe entrego meu cartão da universidade e já em um tom muito agressivo me xinga sem parar.

Me acusou por cerca de 2 minutos, através do rádio, preso em seu peito, chama uma viatura, enquanto me algema com as mãos para trás. Tento argumentar que não há necessidade disso, ele me xinga mais e manda eu me calar. Entro na viatura, os outros policias pedem a quantidade apreendida e se surpreendem com seu colega: Tu vai fichar? O policial que me abordou só responde que sim e me xinga mais um pouco. Os xingamentos são sempre os mesmos, lições de moral de quem não tem moral para dar lição, viciado, marginal, maconheiro, traficante, vagabundo e et cetara.

Entrei na delegacia que se localiza a uma quadra do local onde fui abordado, as pessoas na sala de espera que assistiam a novela das 7, em uma TV 14 polegadas presa na parede, imediatamente desviaram o olhar e me encararam profundamente, só consegui olhar para o chão, logo em seguida tropecei em ajulejo solto.

Fui conduzido até uma sala onde haviam uma mesa, um ármario, algumas cadeiras, duas descargas de privada na parede e um longo banco, com uma grossa barra de ferro por toda extensão de seu encosto. O "gentil" policial me conduzindo aos trancos e barrancos me colocou no tal banco e algemou uma de minhas mão na tal barra.

Já algemado no banco havia um rapaz, pego por afanar uma mulher, sei que ele tem 33 anos
porque um policial perguntou, mas era impossivel precisar sua idade, talvez pelas roupas
velhas que vestia, talvez pelas sequelas das drogas em seu corpo. Não me recordo o seu nome,
mas foi muito cordial, ao contrário do homem da lei. Contou algumas piadas, conversamos um
pouco, me deu as dicas necessarias caso eu fosse encarcerado e sabia tantas leis que se
sairia bem em uma faculdade de Direito. Mostrava uma inteligencia bastante superior a do sargento Dequi.

Se passaram cerca de 2 horas, onde outros policiais entravam e saiam sempre pedindo o que eu tinha feito, enquanto o herói da noite mostrava sua grande apreensão. Fui interrogado, sempre sendo xingado e ameaçado e humilhado e alvo de chacota e de palavras jocosas. Minha reação?
Olhar para o chão e xingar esse filho da puta mentalmente.

Fui chamado para prestar depoimento, meu amigo da lei me soltou e em seguida me algemou para me conduzir a sala em frente, ou seja, fui algemado para andar 3 metros, dentro de uma delegacia, onde existem diversos policiais armados e que mesmo se eu quizesse não conseguiria fazer nada. Prestei depoimento, o escrivão foi um pouco mais gentil, hora parecia preocupado comigo e hora concordava com o policial. Fui fichado no artigo 16 (consumo) com a quantidade de 12,5 gramas, o que me faz pensar que o policial que me abordou, enxertou ou injetou (como queiram) maconha na minha maconha. Entenderam? Acho que ele colocou mais maconha do que eu relamente tinha. Porra! Façam as contas!

Enfim, quando solicitado terei que comparecer ao fórum para ser julgado por porte -como consta na ficha- de uma substancia esverdeada semelhante a maconha. Posso pegar até 3 meses de prisão, ter que pagar uma multa que varia de 240 reais até 46 mil reais, ou na melhor das hipóteses, pagar cestas básicas, visitar semanalmente clínicas ou comparecer mensalmente perante o juiz.

Meus amigos, eu sou uma pessoas ruim? Eu maltrato meus pais, minha namorada, meus conhecidos? Sou um bandido, assassino, ladrão, estuprador ou algo do genero?
O meu crime foi portar uma substancia que, leigos facilmente confundiriam com tabaco, que tem efeitos semelhantes ao álcool e blá blá blá blá, poderia ficar argumentando dias sobre a maconha e a tamanha hipocrisia de nosso país.

Sei lá, tirem suas conclusoes dessa história. Mas sinceramente, é necessário isso? É realmente necessário?

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