28 de junho de 2004

Botando o bloco na rua
Parada gay é um parque de diversões para a família

por Fabrina Martinez e Wagner
[ 17/06/2004 ]

São Paulo tem a maior parada gay do mundo com 1,5 milhões de participantes, conforme registrado pelos jornais brasileiros no dia 13/06. Bem, e daí? Quem realmente se importa com esse tal de orgulho gay? Eu, nem um pouco. Me importo com cidadania. Quem entra no quarto comigo só diz respeito à mim e não ao cara de terno azul marinho mal cortado que pode ser meu pai, meu irmão, meu tio ou o desgraçado que desconta o imposto de renda na fonte. Minha expectativa é que isso funcionasse assim com todos.

Para os GLBTs (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Transgêneros) ? Alguém sabe onde raios foram parar os simpatizantes? - a parada é o momento absoluto da glória. Coturnos, chicotes, saltos de acrílico, purpurina e chapéus tomam as ruas, transformando todo paulistano que não está trajado como o Clóvis Bornay em ?diferente? por um dia. E assim forçam os ?diferentes? a aumentar ainda mais toda sua base de preconceito. Todo gay se transforma num marciano, ?Leve-nos a seu líder ou iremos vaporizá-lo?.

?Prazer, eu sou gay?. Foi assim que um menino me cumprimentou numa festa. ?Prazer, eu sou Fabrina?. Talvez fosse mais apropriado ter respondido ?Prazer, eu sou gente? ou jornalista ou um organismo com base de carbono, sei lá. O que dizer? Não vou escrever uma coisa besta como ?eu tenho milhões de amigos gays para bem mais forte poder cantar?, mas tenho sim, muitos amigos que não estiveram na parada em lugar algum. Por que? Ora, o que faz diferença na vida deles são os 364 dias restantes, quando não estão com um exército gay na retaguarda. Não há trocadilhos intencionais neste texto.

Aliás, 3 anos atrás, essa parada parecia legal. Conversando com meu primo, um desses tipos exóticos que acredita em bom senso, percebi que essa reunião é a hora da louca da sociedade. O papai segura na mão da mamãe e dos filhinhos e vai em direção às aberrações. Sim, o circo dos horrores em desfile na Paulista, aquela gente que precisa de licença do Ibama para andar com aqueles cabelos. As pessoas que estão lá, não estão apenas por apoio ou solidariedade (alguém já tem notícias sobre o paradeiro dos simpatizantes?), mas sim por curiosidade. A curiosidade de ver dois homens se beijando, de ver mulheres que gostam de mulheres, de homens que gostam de mulheres a ponto de se tornarem outras mulheres.

E eles ficam ali, parados, com a boca rosa de algodão doce enquanto a massa raivosa e maquiada passa em direção a lugar algum. Orgulho não se maquia, não se veste de Teletubbie e não sai para comemorar algo fantasiado de astronauta cor-de-rosa. Orgulho é aquela coisa sem rédea que faz com que as pessoas reajam de forma sensata e inteligente a agressões. Dia do orgulho gay é todo dia. Dia como aquele é o período em que a rainha louca decide comemorar seu desaniversário cortando cabeças. Nem mesmo aquelas cartas seriam capazes de apaziguar a ira dos que se julgam diferentes.

Na véspera da festa, um gay nos convida para uma articulação política em que os direitos dos homossexuais serão preservados. Mas direitos não são direitos? Até onde o que se cobra não é apenas uma sociedade politicamente correta onde um aleijado é um deficiente físico, um fofinho se tornou obeso mórbido e um negro um afro-americano. As coisas andam confusas por esse lado do buraco. Meu primo diz que para ser gay tem é que ser muito homem. Ele não anda de mãos dadas na rua e nem participa do orgulho gay. E há 3 anos atrás isso me soou quase como uma aberração. Hoje, eu vejo que o orgulho gay se estende pelos 364 dias.

E aquilo que vimos na rua, é tão apenas a hora da louca. Quando a sociedade enxerga e aceita por um dia o que ela prefere não lembrar depois. Certo estava Nelson Rodrigues, se todo mundo soubesse o que o outro faz na cama, ninguém falaria com ninguém.

Fonte: Fraude

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